quarta-feira, 17 de abril de 2013

Portugal e os enganos da História

Roma, século I a.C.
Júlio César é uma peça escrita por Shakespeare há mais de quatrocentos anos e que inclui uma das suas personagens mais dúbias: Brutus. Amigo chegado de Júlio César, honesto e procurando o bem comum, Marcus Junius Brutus acredita que é preciso fazer o mal, no caso assassinar o amigo, para atingir um bem maior, ou seja, salvar a República.
O que se segue todos nós conhecemos: Nos famosos idos de março, em 44 a. C., César é assassinato por vários senadores, entre eles Brutus, que num primeiro momento são encarados como verdadeiros heróis. Durante o funeral, no entanto, Marco António, exibindo as vestes ensanguentadas de César, faz um discurso apaixonado sobre o defunto e vira o povo contra os seus assassinos, que acabam obrigados a fugir. Brutus suicidou-se em 42 a.C., após a derrota na Batalha de Filipos.
Brutus, pelo menos o Brutus de Shakespeare, nunca compreende bem o motivo que leva o povo de Roma a não perceber que o seu ato, mal em si, fora motivado por um sincero desejo de alcançar um bem maior: salvar a República da ditadura de César. Ele tenta mesmo, mas em vão, explicar as suas razões do alto da tribuna: Sede pacientes até o fim. Romanos, concidadãos e amigos! Ouvi a exposição da minha causa e fazei silêncio, para que possais ouvir. Crede em minha honra e respeitai minha honra, para que possais acreditar nela.
México, século XIX d. C.
Na segunda metade do século XIX o México encontrava-se em estado de falência e devia avultadas somas a vários países europeus: 3 milhões de pesos à França, 5 milhões à Espanha e outros 70 milhões à Inglaterra. O governo liberal liderado por Benito Juárez fez o que era usual fazer naquela época pré-FMI: avisou que iria suspender os pagamentos por dois anos.
O Imperador dos franceses, Napoleão III, com o acordo das demais potências europeias, fez também o que era comum na época: arranjou alguém para tomar conta da loja, ou, por outras palavras, nomeou um Imperador para o México. O escolhido foi o Arquiduque da Áustria, Fernando Maximiliano José de Habsburgo-Lorena, irmão do Imperador Francisco José, coroado com o título de Maximiliano I. O seu reinado durou 3 anos, de 1864 a 1867.
Enfrentando as tropas republicanas apoiantes de Benito Juárez e uma oposição cada vez mais explícita por parte dos Estados Unidos, Napoleão III decidiu retirar os soldados franceses do México e aconselhou Maximiliano a abdicar. Este não aceitou a proposta e acabou fuzilado.
O que Maximiliano não parece ter percebido é que era Imperador não por vontade dos mexicanos, mas dos credores europeus e que sem o apoio militar destes últimos o seu império era pura nuvem. Entretanto, enquanto ainda tinha a coroa, tomou decisões impopulares, como aumentar os impostos para garantir o pagamento da dívida externa e leis como o célebre Decreto Negro, que estipulava que qualquer mexicano republicano capturado em combate seria executado.
 
Nesta situação singular em que Portugal se encontra, cada membro do governo deveria estar a perguntar-se neste momento como deseja passar à História. Ou como exclama o Brutus da peça: Muito bem. Avançai. Oh, se soubéssemos o fim desta jornada antes do início! Mas basta que este dia chegue ao término, que o fim já saberemos. Vamos! Vamos!

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