Roma, século I a.C.
Júlio César é uma peça escrita
por Shakespeare há mais de quatrocentos anos e que inclui uma das suas
personagens mais dúbias: Brutus. Amigo chegado de Júlio César, honesto e
procurando o bem comum, Marcus Junius Brutus acredita que é preciso fazer o
mal, no caso assassinar o amigo, para atingir um bem maior, ou seja, salvar a
República.
O que se segue todos
nós conhecemos: Nos famosos idos de março, em 44 a. C., César é assassinato por
vários senadores, entre eles Brutus, que num primeiro momento são encarados
como verdadeiros heróis. Durante o funeral, no entanto, Marco António, exibindo
as vestes ensanguentadas de César, faz um discurso apaixonado sobre o defunto e
vira o povo contra os seus assassinos, que acabam obrigados a fugir. Brutus suicidou-se
em 42 a.C., após a derrota na Batalha de Filipos.
Brutus, pelo menos o
Brutus de Shakespeare, nunca compreende bem o motivo que leva o povo de Roma a não
perceber que o seu ato, mal em si, fora motivado por um sincero desejo de
alcançar um bem maior: salvar a República da ditadura de César. Ele tenta
mesmo, mas em vão, explicar as suas razões do alto da tribuna: Sede pacientes até o fim. Romanos,
concidadãos e amigos! Ouvi a exposição da minha causa e fazei silêncio, para
que possais ouvir. Crede em minha honra e respeitai minha honra, para que
possais acreditar nela.
México, século XIX d.
C.
Na segunda metade do
século XIX o México encontrava-se em estado de falência e devia avultadas somas
a vários países europeus: 3 milhões de pesos à França, 5 milhões à Espanha e outros
70 milhões à Inglaterra. O governo liberal liderado por Benito Juárez fez o que
era usual fazer naquela época pré-FMI: avisou que iria suspender os pagamentos
por dois anos.
O Imperador dos franceses,
Napoleão III, com o acordo das demais potências europeias, fez também o que era
comum na época: arranjou alguém para tomar conta da loja, ou, por outras
palavras, nomeou um Imperador para o México. O escolhido foi o Arquiduque da
Áustria, Fernando Maximiliano José de Habsburgo-Lorena, irmão do Imperador Francisco
José, coroado com o título de Maximiliano I. O seu reinado durou 3 anos, de
1864 a 1867.
Enfrentando as tropas
republicanas apoiantes de Benito Juárez e uma oposição cada vez mais explícita por
parte dos Estados Unidos, Napoleão III decidiu retirar os soldados franceses do
México e aconselhou Maximiliano a abdicar. Este não aceitou a proposta e acabou
fuzilado.
O que Maximiliano não
parece ter percebido é que era Imperador não por vontade dos mexicanos, mas dos
credores europeus e que sem o apoio militar destes últimos o seu império era
pura nuvem. Entretanto, enquanto ainda tinha a coroa, tomou decisões
impopulares, como aumentar os impostos para garantir o pagamento da dívida
externa e leis como o célebre Decreto Negro, que estipulava que qualquer
mexicano republicano capturado em combate seria executado.
Nesta situação singular
em que Portugal se encontra, cada membro do governo deveria estar a
perguntar-se neste momento como deseja passar à História. Ou como exclama o
Brutus da peça: Muito bem. Avançai. Oh,
se soubéssemos o fim desta jornada antes do início! Mas basta que este dia
chegue ao término, que o fim já saberemos. Vamos! Vamos!
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