(*) Presidente do Instituto de Estudos
de Tendências Económicas, professor de economia da Universidade de Missouri.
Mantém um site com escritos sobre finanças e o setor imobiliário.
http://michael-hudson.com/
Tradução de André Cristi
Quando, em agosto de 1914, teve início a
Primeira Guerra Mundial, economistas de ambos os lados do front previram que as
hostilidades não poderiam durar mais de seis meses. As guerras tornavam-se
caras o bastante para que governos ficassem sem dinheiro rapidamente. Parecia
que, se a Alemanha não derrotasse a França na primavera, tanto os Aliados
quanto os Impérios Centrais ficariam sem salvaguarda e alcançariam o que hoje
se chama de abismo fiscal, sendo assim forçados a negociar um acordo de paz.
Mas a Grande Guerra estendeu-se por
quatro anos. Governos europeus fizeram o que os Estados Unidos haviam feito
depois de começada a Guerra Civil, em 1861, quando o Tesouro decidiu imprimir
dinheiro. Eles pagaram pela batalha simplesmente imprimindo mais do próprio
dólar. Suas economias adquiriram firmeza e não houve mais inflação, o que
aconteceria apenas depois de terminada a guerra, como resultado da tentativa
alemã de pagar pelas reparações em moeda estrangeira. Foi essa a causa da queda
da taxa de câmbio, que aumentou o preço da importação e dos produtos
domésticos. O culpado não foi o gasto com a guerra (muito menos qualquer gasto
com programas sociais).
Mas a história é escrita pelos
vencedores. E as últimas gerações viram os bancos e o setor financeiro
vencendo. Mantendo os 99% de baixo endividados, o 1% de cima atualmente
subsidia uma teoria económica enganadora, que persuade eleitores a preferirem
políticos que beneficiam o setor financeiro em detrimento do setor produtivo e
da democracia.
Os lobistas de Wall Street culpam o
desemprego e a perda de competividade industrial decorrentes dos gastos
públicos e do déficit orçamentário – principalmente os que envolvem programas
sociais. O mito (talvez nós devamos chamá-lo de junk economics) diz que (1)
governos não deveriam executar déficits (não por imprimir a própria moeda, pelo
menos) porque (2) a criação de dinheiro público e impostos altos aumentam preços.
A cura para o mal-estar económico (que a própria junk economics causou) é
diminuir gastos públicos e impostos sobre ricos, que se autoproclamam
“criadores de empregos”. Ao requisitarem o excedente orçamentário, os lobistas
dos bancos prometem que a economia terá poder de consumo suficiente para
crescer. E, se isso resulta em mais crise, eles insistem que um pouco mais do
dinheiro público deve ser usado para pagar as dívidas do setor privado.
A verdade é que quando os bancos enchem
a economia de dívidas, faz-se com que menos seja gasto em bens domésticos e
serviços. Enquanto isso, sobe o preço da moradia (e do custo de vida) com
crédito excessivo e termos de empréstimo mais folgados. E os lobistas dos
bancos pedem deflação fiscal. O efeito é a ainda maior redução da demanda ao
setor privado, o afundamento do mercado de trabalho e o crescimento do
desemprego. Os governos caem em desespero e são advertidos a vender recursos
naturais, empresas públicas e outros bens. Isso torna o mercado lucrativo para
que empréstimos bancários financiem a privatização a crédito. Assim se explica
o apoio dos lobistas do mercado financeiro ao direito de aumentar preços de
necessidades básicas, direito que acaba por criar uma frente pela extração de
renda. O efeito é o enriquecimento do 1% dono do setor financeiro às custas do
endividamento de indivíduos, negócios e do próprio governo.
Essa política foi exposta como
destrutiva no final dos anos 1920, quando John Maynard Keynes, Harold Moulton e
alguns outros rebateram as afirmações de Jacques Rueff e Bertil Ohlin. Segundo
estes, dívidas de qualquer magnitude poderiam ser pagas se governos impusessem
austeridade suficientemente profunda. Essa é a doutrina adotada pelo Fundo
Monetário Internacional e pelos neoliberais europeus. O primeiro impõe seus
princípios sobre os caloteiros do Terceiro Mundo desde 1960, os últimos sobre
Irlanda, Grécia, Espanha e Portugal.
Dada a opção de imprimir dinheiro em vez
de aumentar impostos, por que políticos só criam novo poder de consumo para sustentar
guerras? Por que os governos devem taxar reformados e não Wall Street? Por que
o governo norte-americano não imprime dinheiro para pagar a Segurança Social e
o Medicare assim como criou novas dívidas em virtude dos $13 trilhões (eu
voltarei a esta questão mais tarde) ?.
A resposta a essas questões tem pouco a
ver com mercados ou com teoria monetária. Banqueiros dizem que, se tiverem que
pagar mais seguros de depósito para salvar o Tesouro ou o contribuinte, terão
que cobrar mais dos clientes, apesar dos correntes recordes lucrativos. Quando
se trata de taxar o trabalho, porém, eles apoiam outra modalidade fiscal.
Colocar as taxas sobre os ombros dos
trabalhadores e da indústria é alcançado por cortar gastos com o 99%. Essa é a
raiz das discussões de dezembro de 2012, sobre se se deve ou não impor as
políticas antidéficit propostas pela comissão Bowles-Simpson, nomeada pelo
presidente Obama em 2010. Derramando lágrimas de crocodilo em razão da
incapacidade do governo em equilibrar o orçamento, os bancos insistem que 15,3%
do imposto que financia a Medicare e a Segurança Social seja estorvado – como
se isso não aumentasse o custo de vida e diminuísse o poder de compra dos
consumidores. Empregadores e sua força de trabalho são advertidos a guardar
dinheiro para a Segurança Social ou outros programas públicos. Esse é um
imposto disfarçado sobre os 99%, cujos rendimentos são usados para reduzir o
déficit orçamentário para que impostos possam ser cortados do mercado
financeiro e do 1%. Parafraseando Leona Helmsley quando disse que “só as
pessoinhas pagam impostos”, o mote pós-2008 é que só os 99% devem perder.
Não é mais necessário guardar dinheiro
para a Segurança Social do que é para financiar a guerra. Vender títulos do
Tesouro para pagar reformados tem efeitos monetários e fiscais idênticos a
vender novos valores imobiliários. É uma charada para transferir a carga
tributária para o setor produtivo. Governos precisam prover a economia com
dinheiro e crédito para expandir mercados e empregos. E eles o fazem por
executar déficits orçamentários, o que também pode ser feito por criar
dinheiro. A isso é que bancos opõem-se, dizendo que tal medida conduz a
economia mais à hiperinflação do que ao crescimento.
A lógica por trás dessa acusação errônea
não é senão os interesses dos próprios banqueiros. Banqueiros sempre lutaram
para impedir que o governo criasse seu próprio dinheiro – ao menos em tempos de
paz. Por muitos séculos, títulos do governo eram os maiores e mais seguros
investimentos para as elites financeiras. Investidores e corretores
monopolizavam as finanças públicas. O mercado de ações e títulos de corporações
era prenhe de fraudes e dominado por informantes das grandes trustes que Wall
Street organizava, além dos corretores britânicos e franceses.
No entanto, havia pouca alternativa para
que governos criassem seu próprio dinheiro quando os custos da guerra excediam
de longe o volume de economias nacionais ou receitas tributárias disponíveis.
Essa necessidade óbvia silenciou a tradicional oposição montada por banqueiros
para limitar a opção da moeda pública, o que mostra que governos podem fazer
mais em estado de emergência do que em condições normais. E a crise financeira
de setembro de 2008 proporcionou uma oportunidade para que os governos
norte-americano e europeus criassem novas dívidas em função do resgate aos
bancos, tão caro quanto uma guerra. Com efeito, era uma guerra financeira. Os
bancos já haviam capturado as agências regulatórias para que empreendessem
empréstimos irrefletidos e uma onda de fraudes e corrupção não vista desde a
década de 1920.
A primeira vitória dos banqueiros foi
incapacitar o Tesouro, a Reserva Federal e a Controladoria da Moeda de regular
o setor financeiro. Gigantes de Wall Street têm poder de veto na nomeação de
administradores dessas agências. Eles usaram esse ponto de apoio para eliminar
qualquer candidato que não os favorecesse, preferindo adeptos da
desregulamentação do naipe de Alan Greenspan e Tim Geithner. Como sentenciou
John Kenneth Galbraith, uma pré-condição para a obtenção de um cargo num banco
central é visão de túnel quando se trata de entender que governos podem criar
crédito tão prontamente quanto bancos. É necessário que a lealdade política do
candidato esteja com os bancos.
Após a ruína financeira de 2008, bastou
alguns comandos de computador para que o governo norte-americano criasse $13
trilhões em dívidas para salvar os bancos de danos pelos temerários empréstimos
ao mercado imobiliário, apostas arbitrárias e fraudes descaradas. Os $800
bilhões do Programa de Alívio a Ativos Problemáticos (Tarp) mais os $2 trilhões
da Reserva Federal permitiram aos bancos que continuassem pagando absurdos para
executivos e possuidores de títulos sem quaisquer obstruções enquanto o
rendimento dos outros 99% da população estadunidense submergia.
Um novo termo, capitalismo-cassino, foi
cunhado para descrever a transformação pela qual passou o capitalismo
financeiro após a desregulamentação dos anos 1980, abridora das porteiras para
que bancos fizessem o que governos faziam em tempos de guerra: criar dinheiro e
novas dívidas públicas por simplesmente ”imprimir” (utilizando teclados de
computador, neste caso).
Tomar para as contas públicas as falidas
agências de hipoteca Fannie Mae e Freddie Mac custou $5.2 trilhões, mais de um
terço dos $13 bilhões usados no resgate. Isso salvou os possuidores de títulos
de sofrerem perdas em virtude das avaliações fraudulentas sobre hipotecas com
as quais o Countrywide, o Bank of America, o Citibank e outros bancos “grandes
demais para falir” se meteram. Esse enorme crescimento de dívidas foi produzido
sem aumento de impostos. Com efeito, os cortes feitos na administração Bush
proporcionaram maiores reduções para os mais ricos, também maiores
contribuintes da campanha republicana. Privilégios fiscais foram oferecidos a
bancos. A Reserva Federal apresentou linha livre de crédito (flexibilização
quantitativa) para o sistema bancário por somente 0,25% de juros anuais até
2011 – isto é, um quarto de um por cento, sem questionamento da validade das
hipotecas e de seus bens colaterais.
A criação dos $13 trilhões em dívidas para
o salvamento dos bancos não foi acusada de ameaçadora à estabilidade económica.
Ela permitiu aos bancos prosseguirem pagando seus salários exorbitantes, bônus
e dividendos, além das contrapartes de suas apostas arbitrárias. Esses
pagamentos ajudaram o 1% a receber 93% do rendimento de 2008. O resgate, assim,
polarizou a economia, dando ao setor financeiro mais poder sobre o setor
produtivo, os consumidores e o governo do que era o caso desde o século XIX,
após a Guerra de Secessão.
Tudo isso torna a atual guerra
financeira parecidíssima com as consequências da Primeira Guerra Mundial. O
efeito é o empobrecimento dos perdedores, a apropriação de ativos públicos
pelos vencedores e a imposição de dívidas e impostos como nos tempos da
cobrança de tributos. “A crise financeira tem sido tão devastadora
economicamente quanto uma guerra mundial e talvez seja um fardo a ser carregado
até por nossos netos”, observou recentemente Andrew Haldane, oficial do Banco
da Inglaterra. “Em termos de perda de rendimento e produção, a crise foi tão
ruim quanto uma guerra mundial”, disse. O aumento da dívida pública sempre
incitou a convocação de austeridade econômica. “Seria surpreendente se as
pessoas não estivessem se perguntando sobre o que deu errado com as finanças”.
Mas, enquanto o setor financeiro estiver
vencendo a batalha contra a economia, ele preferirá que todo mundo pense que
não há alternativas. Tendo tomado para si tanto o domínio da economia quanto
das políticas econômicas, o setor financeiro busca manter estudantes, eleitores
e a mídia longe de perguntarem-se o motivo pelo qual a organização deve se dar
desta maneira. Uma vez que busquem tal questionamento, as pessoas podem se dar
conta de que os sistemas bancário, de segurança social e de financiamento da dívida
pública não necessariamente devem organizar-se assim. Há melhores alternativas
para o atual caminho de austeridade e escravidão econômicas.
Sem comentários:
Enviar um comentário