segunda-feira, 11 de março de 2013

Os miseráveis não precisam ser miseráveis

A editora Relógio d´Água lançou recentemente a obra Os criadores da economia moderna, da autoria de Sylvia Nasar. O livro, escrito com uma clareza magistral, revela, a cada capítulo, as questões colocadas a sucessivas gerações de economistas e as respostas por eles indicadas.

Como qualquer tema da História, e principalmente da história do pensamento económico, é impossível não estabelecer paralelismos com o tempo presente, ficando sempre no ar a dúvida sobre se somos ou não capazes de aprender com o passado.

É o que se passa, por exemplo, no capítulo sobre a economista Beatrice Webb, a quem devemos a primeira teorização sólida sobre uma rede de proteção social, ou, como dizemos hoje, Estado Social.

Juntamente com o seu marido, Sidney, defenderam na sua obra conjunta Industrial Democracy, publicada em 1897, ideias como um salário mínimo e um sistema de saúde nacional. Lembra alguma coisa?

Em 1905, Beatrice participou numa comissão real que visava reformar as chamadas Leis da Pobreza. A sua teorização é, ainda hoje, fundamental. Resumindo, Beatrice defendia que a desigualdade e, por conseguinte, a pobreza, seria inevitável, mas tal não ocorreria necessariamente com a miséria. Eliminar a miséria era a chave para impedir que a pobreza de uma geração passasse automaticamente para a geração seguinte. Lembra alguma coisa?

Mais, ela era contra a ideia de que a miséria resultava de um defeito moral. Ao contrário, apresentou uma lista de cinco causas que correspondiam aos principais grupos de indivíduos e famílias na miséria:

 1.Os doentes;
 2.As viúvas com filhos pequenos;
 3.Os idosos;
 4.As pessoas que sofriam de distúrbios mentais, da pouca inteligência à loucura;
 5.Os indivíduos saudáveis, cuja miséria resultava do desemprego crônico.

 Lembra alguma coisa?

 A Inglaterra do início do século XX proporcionava alívio às pessoas assoladas pela miséria, mas não prevenção. Beatrice propunha justamente o contrário: o Estado deveria, na medida das suas capacidades, colocar em prática medidas que eliminassem, ou ao menos reduzissem, as causas da pobreza. E que políticas seriam estas? Garantir a todos os cidadãos, mesmo todos, coisas básicas tais como alimentação e educação na juventude, emprego e salário dignos na vida adulta, assistência aos idosos e doentes. Lembra alguma coisa?

Devemos a Beatrice Webb uma boa parte do quadro teórico que nos permite hoje afirmar que a pobreza não é fruto unicamente de certas condições ou circunstâncias, mas de escolhas claras efetuadas pelos governos. É graças a pensadores como ela que ficamos sempre com a pulga atrás da orelha sempre que ouvimos um governante dizer “Não há alternativa”. Lembra alguma coisa?


Poderá ler a primeira página do livro em...

http://www.relogiodagua.pt/uploads/9/8/1/6/9816481/pginas_de_nasar_1a.pdf

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