domingo, 18 de novembro de 2012

Matemática e política

Ricardo Arroja apresenta “causa das coisas” em números e fala dos desafios do País.
"As contas politicamente incorrectas da economia portuguesa", da autoria de Ricardo Arroja, é um livro de leitura obrigatória. Por três razões. Primeiro, porque apresenta números, alguns pouco falados, outros largamente especulados. Mas todos contextualizados. E, todos de manifesto interesse - e muita oportunidade. Por outras palavras, esta obra que permite saber e interpretar números, leva à acção. Não só no final da leitura da obra; mas também durante a leitura da mesma. São vários os momentos em que o leitor se sentirá tentado a pegar num papel - ou num qualquer aparelho electrónico - e a escrever. A registar aqueles números que às vezes falham (ou não existem), na memória.
Numa linguagem simples e acessível, Arroja desmistifica muitos dos algoritmos que andam por aí a circular sem norte, de mãos dadas com muitas informações e citações que baralham mentes, que se contradizem, que se misturam entre opiniões, realidades e (algumas) ficções. Uma confusão.
Algo alucinante e que leva o cidadão "ao desespero". E é exactamente no meio de todo este turbilhão "explicativo" que surge no mercado este livro - que não apresenta apenas uma visão ou ideologia. Tenta, pelo menos, tocar em várias. Este é o segundo factor de diferenciação desta obra. Algo que se complementa com o bom ritmo de escrita, conseguido através de um bom envolvimento do leitor, que dará por si, às vezes, a rir no meio da "desgraça" que os números apontam (Basta olhar para os "títulos" ao lado).
Por último, um dos grandes méritos deste livro consiste na identificação que alguns leitores irão sentir quando confrontados com "a necessidade de mudança" transmitida pelo autor, que se adivinha um jovem nascido na segunda metade dos anos 70. Está cheio de garra, não quer saber de culpados, quer é soluções e sobretudo esclarecimentos. Quer ver crescimento. Afinal, quer garantir um Portugal melhor para ele. E, a valer pela dedicatória e pelos agradecimentos, para os filhos. Concordando, ou não, com algumas interpretações que o autor dá ( também aos números) e partilhando, ou não, a mesma opinião em relação a temas como o peso e função do Estado na Economia, ou a visão sobre o ultimato "mercado único ou moeda única", o facto é que vale a pena ler este livro, que funciona, também, como um manifesto a favor do progresso. Seja economista de água doce ou salgada, leia esta obra, que também toca no Mar. Como escreve o autor " Esta é uma história portuguesa, com certeza" à qual nem Fernando Pessoa falta. Afinal, "Não sei se é sonho, se realidade"(F.Pessoa).
Acerto de contas IN LIVRO
Capítulo 1 : As Insolvências
A economia portuguesa, representando menos de 0,5 % do PIB mundial, terá produzido quase 2 % de todas as novas insolvências no mundo em 2012. Das 370.000 sociedades comerciais existentes em Portugal, 320.000 são microempresas, só 18.000 é que exportam, e destas 18.000 apenas 100 são responsáveis por cerca de metade do volume global de exportações portuguesas. Entre as empresas que vão sobrevivendo, depois de deduzidos os custos da dívida, o lucro normal médio na economia portuguesa é de zero por cento.
Capítulo 3: Terra Queimada
Nas últimas décadas, quase que deixámos de produzir. Deixámos de produzir coisas, os tais bens transaccionáveis que passámos a importar, e abandonámos o sector primário - agricultura e pescas. (...)
Capítulo 4: Desindustrialização
A indústria não emprega hoje mais de 750.000 trabalhadores, ou seja, menos de 15% da população activa; em 1970, empregava um milhão de assalariados, que representava mais de 30% da população activa. A produtividade do capital físico, entre 2000 e 2009, diminuiu ao ritmo de 2,5% por ano, no que constitui o pior registo dos últimos cem anos. (...)
Capítulo 5: Produtividade
Em Portugal, a produtividade por hora de trabalho em 2011 traduzia-se numa produção cujo valor era de 17 euros por hora de trabalho. Na vizinha Espanha, 30 euros. Na União Europeia, 32. Na média da Zona Euro, 37. (...)
A Educação
Considerando todo o universo de alunos no ensino superior público, cerca de 300.000 em 2010, cada aluno custava aos portugueses mais de 8.000 euros por ano.
Ponderados os custos entre o ensino básico, o secundário e o superior, em 2012, o ensino público representaria em Portugal um investimento anual de 4.000 euros por aluno, num país onde a remuneração do trabalho per capita era de pouco mais de 8.000 euros por ano. Como nem todos têm de ser licenciados, o combate ao analfabetismo funcional deveria ser a principal prioridade educativa. Por exemplo, na Alemanha mais de metade dos alunos inscritos no ensino secundário frequentam o ensino vocacional, cerca de 56%, contra apenas 14 % em Portugal.

Mais em:

http://economico.sapo.pt/noticias/contas-portuguesas-com-certeza_156363.html

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