sábado, 24 de novembro de 2012

Sugestão de leitura

Os Cães de Tessalónica



Não é que seja impróprio para cardíacos ou que tenha luzes a piscar que o tornem inacessível para epilépticos. Mas alguns livros deviam vir com recomendações de segurança, e Os Cães de Tessalónica é um desses casos que pode representar perigos vários para os leitores. Em particular aos que já tenham pensado em divórcio mais do que uma vez, que estejam à beira da ruptura com algum irmão ou que apresentem sintomas gerais de falência de fé no sistema familiar.

Em casas que têm sempre um alpendre, que têm quase sempre uma horta ou jardim, onde nunca se questiona a presença permanente de garrafas de vinho, esta sucessão de histórias independentes movimenta-se como uma massa, como uma daquelas matilhas de cães vadios à qual se vão juntando novos elementos à medida que avançam imperturbáveis pela rua. Os casais, com horta ou sem horta a simbolizar uma ideia de estabilidade que facilmente se pisa ou arranca, estão no centro.
E, com todos eles, uma estranha sensação de terror silencioso, um simples toque no pescoço transformando em perigo iminente, um jogo de rotinas enquanto castigo incontornável, a intimidade como ferida e a solidão um oásis celebrado em curtos desabafos ou em fugas para pontos distantes do jardim. E nenhuma possibilidade de redenção na beleza dos fiordes ao fundo, no copo de vinho partilhado ou nas memórias de um passado doce que serve tantas vezes de exército de salvação em literatura. Aqui, até já as memórias secaram, como os cães de Tessalónica que estão no título. E o divórcio, que parece nunca surgir, é a mais piedosa nota de rodapé mental que o leitor pode acrescentar.
Talvez pela herança incestuosa que Eduarda e Carlos da Maia imprimiram ao de leve em todos os seus conterrâneos, as relações fraternas desta matilha de histórias são ainda mais penosas. Ou talvez porque não se inventou ainda a possibilidade de separação entre irmãos, mesmo que estivesse só no horizonte possível. E quando até essa possibilidade de afecto biológico nos é negada, é como se o círculo se fechasse em definitivo. A terminar num sádico “Lugar Maravilhoso” (o nome do último conto), a matilha encosta-nos a uma parede e avança uniforme com os dentes arreganhados. E não vale a pena gritar. A rua está deserta.

Catarina Homem Marques
http://timeout.sapo.pt/artigo.aspx?id=1719

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